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'Existe dificuldade de os próprios profissionais de saúde olharem a depressão como doença', afirma médico


Midiamax

Com a melhoria da tecnologia na medicina, há cada vez mais uma inclusão de múltiplas áreas médicas em um mesmo procedimento. Por exemplo, quando um paciente de cirurgia bariátrica vai realizar o procedimento, ele é acompanhado por uma equipe multidisciplinar, que, entre outras especialidades, busca entender a questão da incidência de depressão após a realização de procedimentos como balão intragástrico, banda gástrica, entre outros. A depressão também mexe com outros departamentos da vida de uma pessoa, independente se ela realizou uma cirurgia desse tipo ou não.

E muitas vezes, a própria questão é a de que reduzir o estômago pode "salvar pacientes da depressão. Polêmica, a cirurgia bariátrica ainda sucinta muitas dúvidas sobre o alcance do procedimento. Para falar sobre o assunto, o Midiamax entrevista o médico Cid Pitombo, que é responsável por realizar uma grande diversidade de cirurgias para obesidade. Ele atua no segmento há mais de 10 anos. Confira entrevista na íntegra.

A depressão é um assunto ainda muito negligenciado no campo da saúde pública e seu portador pode sofrer ao assumir ter a doença. Qual o caminho para que o tabu da depressão possa ser superado na sociedade?

O primeiro passo é conscientizar a sociedade da gravidade dessa doença. Ainda hoje, infelizmente, ela é vista como uma fraqueza ou é confundida com tristeza. Mas não deveria ser assim, por que ela pode levar o paciente ao suicídio. Homens e mulheres sofrem de depressão, mas as mulheres são mais suscetíveis. Uma em cada quatro mulheres sofrem de depressão pós-parto. Por ser uma doença muito pouco compreendida pela sociedade, é fundamental haja cada vez mais esclarecimentos. E existe também a dificuldade de os próprios profissionais de saúde olharem a depressão como doença. No nosso Programa Estadual de Cirurgia Bariátrica, o que vemos é que depressão e obesidade mórbida ocorrem concomitantes em alta incidência.

A estimativa é de que 350 milhões de pessoas no mundo possam ter depressão. Estamos diante de alguma "epidemia"? O que, na nossa sociedade, pode estar desencadeando esse quadro de saúde?

Sim, estamos vivendo uma epidemia depressiva. A depressão pode ser causada por pressões ambientais, sociais e por disfunções orgânicas. Observamos que o número de depressivos tem aumentado muito em nosso país, pois a situação de desemprego e crise econômica, afeta diretamente o bem-estar mental das pessoas. Acredito que deveria ser feita uma campanha nacional de conscientização para abordar a doença. Vale lembrar que a saúde mental não é menos importante que a saúde física. Pelo contrário, para cuidar da saúde física, e preciso primeiro cuidar da saúde mental.portadores de obesidade mórbida, apresentam quadro de depressão muito vinculado à sua condição de saúde, dificuldades na vida social, amorosa e até em hábitos simples, como por exemplo se limpar após o uso do banheiro..mais de 90% ao serem operados e emagrecerem, saem desse quadro. Na saúde pública, por incrível que pareça, os pacientes se sentem mais confortáveis em admitir isso do que na medicina privada.

Atualmente fala-se de tratar a depressão de forma multi-disciplinar, observando as diversas causas que ela pode acarretar, dentre elas, a obesidade. Como é a relação entre as duas doenças?

A obesidade e a depressão estão diretamente ligadas. A depressão pode causar obesidade, e a obesidade pode levar a depressão. Podemos dizer que é um quadro cíclico. Os pacientes obesos encontram diversas dificuldades diariamente - como de locomoção, no âmbito profissional e nas relações afetivas - , o que pode sim levar a depressão. Além disso, a falta de serotonina no cérebro aumenta o desejo de consumir carboidratos e doces. como falei, o fator ,em geral, principal da depressão nos obesos, é a condição de estar obeso! A reversão desse quadro, em geral se da combo emagrecimento. No nosso serviço, fazemos rigorosa avaliação pré e pós-operatório com equipe composta de médicos, inclusive psiquiatra, nutricionistas e psicólogos. Todos se falam e estão atentos a qualquer mudança comportamental!

A procura pela cirurgia bariátrica como forma de tratar a obesidade tem aumentado bastante e em alguns setores aponta-se a existência de uma certa banalização desta cirurgia. Que critérios precisam ser atendidos para o paciente que tem obesidade e depressão estar apto à intervenção cirúrgica?

A banalização da cirurgia nunca deve ocorrer, pois não estamos falando de uma cirurgia simples. A cirurgia em si é complexa, e todos devem ser muito bem avaliados para serem operados. A boa indicação pre-operatória viabiliza uma chance maior de que tudo dê certo.

O senhor desenvolveu estudo sobre a melhoria da qualidade de vida de pessoas que se submetem à cirurgia bariátrica. Como, exatamente, o paciente que tem depressão e que faz a cirurgia sai beneficiado?
Conseguir estar em um programa público é a primeira conquista. Ser operado é o grande "tratamento" para esses pacientes. Resgatam a vida.

Em 2016, salvo engano, o Conselho Federal de Medicina incluiu a depressão como comorbidade que pode ser apresentada entre os laudos para justificar a cirurgia. Na prática, qual o benefício desta nova interpretação?
Sempre se deixou de lado que patologias psicológicas sejam doenças. No caso dos obesos, isso é uma constância. Essa resolução já veio tarde.

Por Daiane Libero e Guilherme Cavalcante



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