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Padre Crispim Guimarães

Padre Crispim Guimarães


Dom Redovino e a morte cotidiana



Publicado em : 11/11/2016





 Passados cinco dias das cerimônias fúnebres de Dom Redovino, gradativamente vamos, num misto de saudade e gratidão, retomando a vida.

 

Desejo trazer a figura do bispo emérito da Diocese de Dourados nesta coluna semanal, que, para quem se recorda, era ocupada por ele, eu escrevia, às quartas-feiras; assumi a sexta, por sugestão dele. Assim que completou 75 anos de idade, enviando seu pedido de renúncia ao Vaticano, dizendo querer respeitar o próximo bispo, por isso, não desejava mais emitir opiniões, além daquelas extremamente necessárias para o bom andamento da Igreja local, assim, deixaria de ser articulista.

 

Por ocasião dos seus 75 anos, escrevi dois artigos fazendo chegar ao conhecimento dos diocesanos algumas das virtudes de Dom Redovino, volto a fazê-lo, porque a ocasião nos convida homenagear quem tanto bem procurou transmitir. Algumas vezes ele me disse que não desistiu de ser padre porque descobriu a chave da espiritualidade: “abandonar-se nos braços de Deus, como Jesus na Cruz (‘não seja feita minha, mas a Sua vontade’), e Maria que se esvaziava para ser transparência de Deus”. Narrava que esta era a meta, mas não algo fácil para alcançar, porém, era seu projeto de vida.

 

Como ressaltei na homilia da missa que presidi no funeral e também no testemunho na missa presidida por Dom Dimas, 25 anos atrás vi pela primeira vez o Pe. Redovino Rizzardo, num encontro de férias, onde o mesmo testemunhava sobre o abraçar a CRUZ. Para ele a chave da vida cristã se fundamentava neste pilar. Proferia que a morte acontece cada dia, não só porque a dimensão física nos impõe o envelhecimento, mas, sobretudo, porque a vida espiritual é um eterno morrer como preparação para a ressurreição. O seu segredo era abraçar Jesus Crucificado em cada dor, ele assim se reportava diante dos sofrimentos, enfermidades, calúnias, perseguições: “É Ele, é o meu Senhor que me visita”, por isso, mesmo na dor nunca lhe faltava um sorriso nos lábios.

 

Por ocasião da minha ordenação, ocorrida no interior da Bahia, seu jeito chamou a atenção dos meus conterrâneos pela serenidade e alegria, muitos dos meus parentes que nem vida de igreja tinham, perguntavam-me qual o segredo do sorrido constante de Dom Redovino, repeti o que ele mesmo falava: Deus.

 

Como já salientei mais de uma vez, sua simplicidade era algo impressionante. Redovino era uma figura dotada de uma inteligência privilegiada, nunca encontrei alguém com tamanho domínio da língua portuguesa, sua família é composta por pessoas importantes, especialmente no mundo jurídico, mas não era algo que ele revelava, nunca quis destacar estes aspectos de sua família, quis somente viver como um servo de Deus, pobre nos gestos, num vida pessoal completamente austera.

 

Seu amor pela Diocese de Dourados era comovente, sempre se recusava a assumir cargos eclesiais para além da função de bispo diocesano, exatamente para se dedicar ao seu rebanho. Às vezes tinha impressão que ele não dormia, porque a cada dia acordava com uma ideia nova, olhando as possibilidades de crescimento na fé dos seus diocesanos.

 

Repetiu reiteradas vezes, uma grande dor que o acometia diariamente: a não resolução dos problemas agrários do Mato Grosso do Sul, ele sabia que os indígenas foram prejudicados na gestão de sucessivos governos do passado, mas não cogitava que a “justiça” fosse realizada prejudicando aqueles que honestamente compraram suas terras, deslocando-se, às vezes, de lugares longínquos, praticamente com a roupa do corpo e aqui se instalaram para produzir e sustentar a família. A justiça seria fruto do retorno da terra aos índios, mas com a justa indenização aos agricultores, depois de um amplo trabalho de pesquisa, mediado por diversos órgãos e campos de saberes.

 

Depois do seu pedido de renúncia sempre esperava a chegada do novo bispo, anúncio que fez com alegria assim que o Vaticano nomeou Dom Henrique Aparecido de Lima. Para acolhê-lo bem entre os padres, diáconos, religiosos (as) e leigos, demonstrava sempre o desejo que todos estivéssemos unidos ao novo Bispo.

 

Os últimos três anos de vida foi uma verdadeira Via Crucis. Já combalido pelo câncer, foi o período onde sua fé revelou o diferencial em acreditar e viver próximo de Deus. Sabia que a morte estava próxima, não se entregou ao desespero e nem a desejava como quem não acreditava na cura, mas vivia cada momento, entre um certo medo, mas especialmente na esperança. Porém, o sorriso e as palavras de incentivo e confiança, nunca lhe faltaram a quem o procurava.

 

Ele continuará a ser um bom exemplo a todos que peregrinamos no deserto da vida!

 

Pe. Crispim Guimarães

Pároco da Catedral de Dourados




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